A crise como experiência de sofrimento e depressão

Os europeus sentem-se, hoje, profundamente desconfortáveis e inseguros. Para os cidadãos gregos, por exemplo, a Europa significa cada vez mais privação pura e simples. Em 2011 os preços dos combustíveis quase duplicaram. Hoje repetem-se cenas de abate clandestino de árvores em florestas públicas e privadas.

As pessoas destroem o património natural coletivo para não perecerem de frio. Mas as dificuldades não são exclusivas dos gregos, nem sequer dos outros dois países submetidos a «programas de ajustamento>>, como é o caso da Irlanda e de Portugal. Sem pretender fazer um elenco mais do que ilustrativo, também na Itália, na Espanha, em França, e mesmo num país que mantém a sua moeda própria, como a Grã-Bretanha, sucedem-se as manifestações de mal-estar e mesmo casos de depressão.


Na vida quotidiana das empresas, tanto privadas como públicas, escasseia de modo insustentável o crédito. Os bancos, preocupados com a sua própria sobrevivência, retiram-se da economia real, deixando empresários responsáveis e com negócios prósperos numa situação crítica. Aumentam em flecha tanto as falências de empresas como o número de desempregados. Famílias onde nunca houve carência efetiva, são confrontadas com o dilema angustiante de ter de escolher, face ao emagrecido pecúlio, entre bens que são igualmente importantes para a dignidade humana, como a alimentação e a expectativa de garantir aos filhos o usufruto de uma educação superior.

Tudo isto, que constitui apenas um quadro pálido das angústias e mesmo estados de depressão que se escondem nos semblantes carregados que se cruzam connosco nas ruas, explica com facilidade o aumento do número de suicídios que tem ocorrido em todos os países europeus, muitos deles com uma ligação direta  à degradação da atmosfera humana em meio laboral, como ocorreu numa conhecida empresa francesa.

O DESCONTENTAMENTO dos europeus amplifica-se também porque, na maioria dos casos, os cidadãos não têm condições para perceber as causas do que está a acontecer, assim como a complexidade dos seus desenvolvimentos. A crise europeia é vivida pela esmagadora maioria dos europeus como algo que não se deixa ler e traduzir. Como um sofrimento com raízes no absurdo. Tornaram-se agora dolorosamente patentes os resultados negativos do método furtivo da construção europeia.

Ao longo de mais de seis décadas, com variações e oscilações, a arquitetura daquilo que é hoje a União Europeia tem sido, sobretudo, uma esfera de ação intergovernamental, feita no recato da diplomacia e raramente na visibilidade da esfera pública.
Não nos deve surpreender, por isso, que para a maioria esmagadora dos cidadãos europeus a presente crise apareça como algo ao mesmo tempo grave e incompreensível.
A Europa ainda não morreu, mas muitos europeus já envergam um luto antecipado …

 

Com efeito, se os tratados, desde o seu início, proporcionaram uma malha jurídica cada vez mais densa e opaca, entregue a especialistas que navegam nos documentos legais como se estivessem escritos em sânscrito, acrescem agora as dimensões económicas e financeiras desta crise, tornando tudo ainda mais complicado, nebuloso e hostil para um esforço de compreensão.

PODEMOS MESMO falar de uma profunda mudança de expectativa. Ao longo de décadas, a política europeia apareceu associada a boas notícias. Mesmo não alcançando os detalhes da negociação intergovernamental, nomeadamente no seu imenso e complexo aparato jurídico, os cidadãos habituaram-se a ligar a construção europeia a um aumento das liberdades individuais, ao incremento da sua qualidade de vida, à paz e solidariedade entre países que haviam decidido enterrar os machados de guerra, abolir as fronteiras, e entrar numa senda cada vez mais profunda de integração e cooperação. Em vez disso, desde 2012, as novidades que chegam dos centros de decisão europeus são cada vez mais sinónimo de perda de rendimento das famílias e recuo nos bens públicos proporcionados pelo Estado, da saúde à educação, passando pelas próprias infraestruturas. A Europa ainda não morreu, mas muitos europeus já envergam um luto antecipado.

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